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“Hospital de Campanha do PV poderá acolher pacientes do interior”, diz prefeito Roberto Cláudio

22/06/2020 às 09:34:29

Cem dias de casos confirmados de Covid em Fortaleza. Esse tempo acumula milhares de vidas alteradas. Para muitos, o atípico momento é de perdas, lutos e angústias. Já são mais de 5 mil mortes no Ceará. Destas, mais de 3 mil em Fortaleza. Para outros, felizmente, é superação. Recomeço. Pelo menos, 67 mil pessoas no Ceará estão curadas. Destas, mais de 5 mil tiveram alta hospitalar. Experiências que, acima de tudo, demandam o acesso ao atendimento adequado na rede saúde.

Em 100 dias, o Estádio Presidente Vargas virou Hospital de Campanha, o Governo do Estado passou a gerenciar uma unidade da rede particular e a direcionou para casos específicos de Covid, as UPAs e postos de saúde foram integrados à rede de acolhimento de pacientes. Pesquisas sobre as taxas de contaminação foram iniciadas. Mas, sobretudo, a assistência hospitalar precisou ser ampliada urgentemente no Estado.

Na Capital, epicentro da doença no Ceará, estima-se que o pico já tenha ocorrido. Em maio, Fortaleza vivenciou os momentos mais drásticos da pandemia. Centenas de óbitos e leitos com quase 100% de ocupação. Em entrevista ao Sistema Verdes Mares, o prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio, fala sobre esse cenário, as dificuldades, a necessidade de prudência na atual etapa e os possíveis legados da maior crise sanitária da atualidade.

Aos 100 dias do registro dos primeiros casos de Covid no Ceará, os índices da pandemia estão recuando em Fortaleza, mas ainda estamos vivenciando a crise sanitária. Analisando a estrutura que foi criada e incorporada à rede municipal para garantir assistência hospitalar, já dá para saber o que ficará de legado para saúde, após a pandemia?

Nos mobilizamos em tempo recorde, basicamente, um sistema de saúde paralelo para a pandemia. Nós chegamos a montar, só do município de Fortaleza, mais de 800 leitos só para a rede Covid. Alguns já foram desmobilizados. De volta para a rede assistencial. Mas, não foram desmobilizados de forma definitiva, não.

Eles deixaram de ser leitos Covid para serem leitos de assistência em geral em virtude de uma redução muito importante da demanda. Isso, demonstrou que criamos uma capacidade assistencial que fez com que a gente chegasse no pico da epidemia conseguindo assistir à população de pacientes doentes. Só foi possível, em virtude da aquisição de equipamentos, da montagem de Hospital de Campanha, da contratação emergencial de profissionais, da compra de insumos hospitalares, da compra de equipamentos de proteção individual. Houve um esforço gerencial muito competente que permitiu que tivéssemos fôlego para dar uma resposta no pior momento.

Agora, estamos todos os dias olhando para os dados. Não tem como definir quando vamos desmobilizar essa estrutura assistencial para a Covid. Estamos, aos poucos, adaptando o que era leito Covid para voltar a ser assistencial para o SUS. Mas, isso de forma conservadora. A cada semana temos o percentual maior de leitos vagos e é importante que a gente mantenha essa rede por algumas semanas mesmo que vaga para, caso haja, algum tipo de retorno eventual. Tudo o que adquirimos ficará para ampliar e modernizar a rede pública na Capital. Esse é um dos legados importantes que ficam na pandemia.

Já tem uma dimensão do quanto isso significa em equipamentos?

Não sei precisar isso ainda numericamente. O que significa em leitos a mais, respiradores, capacidade cirúrgica, capacidade de internação, mas certamente tudo isso ficará adicionado. Teremos maior capacidade de manejo de pacientes graves e modernizamos nosso parque tecnológico da saúde pública.

Além dos ganhos nas estruturas hospitalares, a pandemia tem trazido melhoria nas experiências de atendimentos, nos procedimentos? Trouxe mais eficácia nos protocolos e novas rotinas?

Eu destacaria alguns elementos. O primeiro é que em uma epidemia dessa dimensão, tudo é importante. Quando começou, parecia que a resposta do sistema de saúde era basicamente montar leitos de UTI e fazer ventilação mecânica e entendemos que é uma coisa muito mais abrangente do que isso. Isso envolve ações preventivas na atenção primária, de diagnóstico precoce, de busca ativa dos pacientes mais graves, de protocolos clínicos iniciados precocemente que evitaram internações. Então, a atenção primária teve o papel importante de integração com o restante da rede e de ser uma porta de entrada, uma peneira, para poder segmentar a gravidade de pacientes.

Uma segunda coisa que fica de processo é a telemedicina. Fica como legado. Nós não tínhamos esse processo anteriormente na rede, passamos a incorporá-lo, e definitivamente não temos mais como abrir mão disso.

Outro processo é qualificar a comunicação com os pacientes. Como foi uma coisa aguda, que não permite acompanhantes pelo risco de contaminação, nos vimos pressionado a construir um novo processo de comunicação com os familiares. Tínhamos centenas de pacientes internados na UTI e tivemos que montar um sistema de comunicação. Isso envolve um robô que transmite a imagem. Esse processo vai ser incorporado definitivamente. Para humanizar inclusive a atenção nos pacientes mais graves que estão internados em algum isolamento.

Uma quarta é uma preocupação, que apesar de ser uma rotina hospitalar, muitos de nós só passou a ter agora com mais relevo. A segurança e proteção dos profissionais da saúde. Processos passaram a ser incorporados para proteger a vida de quem trabalha com vidas.

Em relação ao Hospital de Campanha, a estrutura fica montada até o final do ano? Isso está sendo discutido?

Estamos discutindo toda semana. Os equipamentos estão todos lá. Como a contratação de profissionais é emergencial, estamos desmobilizando essa contratação a medida em que a ocupação está reduzindo. Ao mesmo tempo, a gente pode ligar a chave, em uma semana, se percebermos que é necessário ampliar por precaução. Estamos com tudo montado e vamos monitorar toda semana. Esperando poder desmobilizar o mais rápido possível. Mas, a estrutura pode ser usada inclusive para atender ao interior do Estado.

Uma das questões é justamente essa. Historicamente a assistência em saúde em Fortaleza absolve pacientes do interior, embora esse cenário tenha melhorado nos últimos anos. Na pandemia essa demanda se repetiu? E com a interiorização da Covid, a Capital se prepara para receber pacientes vindos de outras regiões do Estado?

Nós colocamos isso como uma possibilidade. A Joana (secretária da saúde) coloca isso como uma possibilidade. Mas, felizmente, isso não tem sido necessário ainda. O Governo, além do investimento que tem feito desde o Cid, com o Camilo, na ampliação da rede hospitalar, também ampliou leitos de UTIs e respiradores para a Covid no interior. Então, por enquanto não tem sido necessário. Eventualmente, talvez nem seja, pois o Governo continua ampliando a rede no interior. Mas, em sendo, o PV estará disponível.

Como estão pensadas as próximas etapas do inquérito sorológico em Fortaleza? O que foi constatado nesse primeiro momento tem conexão com as hipóteses levantadas? Qual a avaliação dos primeiros resultados?

Essa doença demonstrou que a taxa de resposta da soroconversão (termo utilizado para indicar que o organismo produziu anticorpos em resposta a um antígeno. Isso é detectado por testes sorológicos) que basicamente é o desenvolvimento da imunidade não é tão alta quanto esperava. Isso foi demonstrado em outras cidade do mundo. Em Nova York, que tem o maior registro de soroconversão, chegou a menos de 20%.

Foi a cidade que registrou a maior soroconversão depois da epidemia produzir um enorme estrago à saúde pública, causado muitos óbitos e prejuízo social, econômico à cidade. Depois de tudo isso, apenas 19% das pessoas soroconverteram. Nas cidades de médio e grande porte que fizeram esse tipo de registro, somos a terceira no mundo.

E mesmo assim é menos de 15%. Isso é uma demonstração que nós iremos conviver com o vírus circulante por alguns bons meses pela frente até atingirmos a imunidade de rebanho de, pelo menos, 60%. Nós iremos ter mais duas etapas exatamente para saber se deverá haver uma ampliação da população imune e nos ajudará inclusive a orientar o processo de retomada.

As próximas etapas acontecem quando?

Começamos a segunda etapa agora em junho e tem uma terceira programada. No final de junho ou começo de julho devemos ter informações sobre alguns resultados.

Elas serão feitas em bairros distintos da primeira?

A informação dos bairros é importante, mas a pesquisa tem uma escala municipal. Para alguns bairros específico fizemos amostra maiores. Isso comprovou nossas expectativas. Uma delas que a Regional I teria o maior número de soroconversão, pois, é a que teve o maior número de casos e óbitos. E que as populações que vivem em áreas mais vulneráveis, com renda mais baixa, também foram mais exposta ao vírus. Então, confirmou nossas expectativas anteriores à pesquisa.

Essa pandemia não foi superada ainda, mas algumas dinâmicas de busca por emergências hospitalares por outros motivos estão voltando aos patamares anteriores à crise da Covid. Nesse momento, quais as grandes preocupações na rede municipal? O que volta a ser foco?

Nós fizemos essa discussão na sexta-feira (dia 19 de como essa pandemia ganhou destaque e uma certa prioridade assistencial e como a medida em que a pandemia tem dado trégua, o padrão da assistência nos hospitais está voltando progressivamente ao normal. Interessante que isso está acontecendo de forma simultânea.

Tem aumentado o número de pacientes procurando os nossos hospitais por outros tipos de emergências clínicas e cirúrgicas, inclusive. Acidentes de carro, politrauma, tem voltado a ter um espaço importante. Uma coisa que conseguimos lidar são as arboviroses. De alguma maneira, indica que o isolamento tenha cumprido também um papel indireto de transmissão da arboviroses.

Normalmente uma epidemia no Sudeste brasileiro no ano anterior é um indicativo que temos que ficar como sinal de alerta. Havia um sinal amarelo de alerta para as arboviroses. De alguma maneira, parece que o isolamento social teve um potencial de reduzir o que imaginamos para as arboviroses.

A tendência é que a medida que a pandemia reduza, a vida cotidiana da assistência volte ao normal. Em algum momento, voltaremos a ter cirurgias eletivas. A tendência é que a rede assistencial vá voltando a sua rotina normal ao longo do segundo semestre.

Diário do Nordeste

FOTO: Reprodução Internet

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