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Daniela Mercury corre atrás do trio elétrico em álbum em que une o ativismo à alegria do Carnaval

11/01/2020 às 13:33:57

Resenha de álbum

Título: Perfume

Artista: Daniela Mercury

Gravadora: Páginas do mar

Cotação: * * * 1/2

♪ Ao intensificar o exercício do ativismo ao longo dos anos 2010, em papel que se tornou fundamental no atual momento político do Brasil, Daniela Mercury por vezes exagerou ao pôr a música a serviço da militância.

O último álbum de estúdio da artista baiana, Vinil virtual (2015), soou como manifesto sócio-político que pecou pelo excesso de verborragia do irregular repertório autoral da cantora e compositora.

Em Perfume, álbum apresentado nesta sexta-feira, 10 de janeiro, Daniela corre atrás do trio elétrico e acerta quando une o ativismo à alegria do Carnaval com a gravação de inspiradas músicas.

Para seguidores fiéis da artista, o cheiro de novidade do álbum Perfume é fraco. Há somente quatro músicas inéditas entre as 16 faixas, mas o material novo é de boa qualidade.

Parte substancial do repertório de Perfume já foi previamente apresentada pela artista em singles editados entre 2010 e 2019. Mas há músicas antigas que ressurgem em gravações inéditas.

Sucesso seminal de Chico Buarque, A banda (1966) passa pelo circuito carnavalesco de Salvador (BA) em eletrizante gravação bilíngue que junta Daniela com I Koko, duo italiano formado por Paolo Valli e Teresa Iannello. A versão em italiano da letra foi escrita por Antonio Amurri em 1967 para a cantora Mina.

Cantora que consolidou em âmbito nacional nos anos 1990 a explosão do som afro pop baiano irrompido em 1985 e logo rotulado como axé music, abrindo caminho para conterrâneas como Ivete Sangalo, Daniela Mercury vem errando ao dar demasiada ênfase a repertório autoral, já que nunca foi a ótima compositora que imagina ser.

Em Perfume, esse erro persiste com a inclusão de músicas esquecíveis como Pagode divino (Daniela Mercury, Felipe Pinaud e Léo Reis, 2018) e Pantera negra deusa (Daniela Mercury e Gabriel Póvoas, 2018), samba-reggae ouvido na gravação original e em remix bilíngue com o duo I Koko (desta vez, cantando em inglês), mas é amenizado por boas contribuições alheias para o repertório.

Música lançada em disco há cinco anos pelo grupo baiano Ilê Aiyê com o título de Negras perfumadas, Exalou (Marito Lima, Lafayete e Milton Boquinha, 2015) sobressai no disco ao saudar as cores e o cheiro do bloco afro na cadência inebriante do samba-reggae, perseguindo o aroma de sucessos anteriores da cantora como Ilê pérola negra (O canto do negro), música de Guiguio, René Veneno e Miltão que Daniela apresentou no álbum Sol da liberdade (2000) e que regravou de forma ainda mais contagiante em Eletrodoméstico (2003), registro de show feito na série MTV ao vivo.

Boa novidade do álbum Perfume, Confete e serpentina (Beiju) (Magary Lord, Fabinho Alcântara e Alfredo Moura, 2020) se espalha no disco na cadência agalopada que faz o folião pular que nem pipoca, na pipoca, no Carnaval de Salvador (BA), templo de magia, aliás, saudado por Daniela na menos aliciante Cidade da música (Daniela Mercury, Marquinhos Carvalho e Ana Luísa Almeida, 2016), composição lançada há quatro anos.

Ciente de que o trio elétrico completa 70 anos em 2020, Daniela vai atrás do Andarilho encantado, assim chamado poeticamente no título da música de 2010 composta por Daniela com Marcelo Quintanilha e gravada pela cantora com Carlinhos Brown em registro revitalizado no álbum Perfume.

Mais uma boa nova do repertório de Perfume, Açucareiro (Daniela Mercury, Magary Lord, Samir Trindade e Alexandre Peixe, 2020) é música para a massa real que segue o trio elétrico ávida de refrões grudentos como o da composição. No circuito carnavalesco baiano, o andarilho encantado é como se fosse o palco onde se encena espetáculo de teatro, como sinaliza a artista em Triatro (Daniela Mercury, 2019), música que não chega a empolgar.

Daniela Mercury regrava música de Chico César no álbum ‘Perfume’ — Foto: Célia Santos / DivulgaçãoDaniela Mercury regrava música de Chico César no álbum ‘Perfume’ — Foto: Célia Santos / Divulgação
Daniela Mercury regrava música de Chico César no álbum ‘Perfume’ — Foto: Célia Santos / Divulgação

A trilha sonora desse espetáculo sempre abarcou músicas de outros gêneros. Por isso, Imagine (John Lennon e Yoko Ono, 1971) reaparece na cadência do samba-reggae em gravação lançada em dezembro de 2019 simultaneamente com o registro de Triatro.

Imagine exala a paz desfolhada com doçura apaixonada na regravação de Pétala por pétala, música de Chico César (em parceria) com Vanessa Bumagny lançada na voz do compositor há 18 anos no álbum Respeitem meus cabelos, brancos (2002). Daniela joga a balada na batida do pop reggae sem desconfigurar a canção, mas tampouco sem roçar o tom sublime do registro de outra balada de Chico, Pensar em você (1999), repaginada pela cantora no álbum Balé mulato (2005), a rigor o último grande disco da artista.

Se Daniela Mercury soa firme como voz da resistência, a compositora oscila como de costume. Música encorpada com o baticum eletrônico do atual pagode baiano, Rainha da balbúrdia (Daniela Mercury, 2019) brada pela liberdade sem fazer o barulho causado por Proibido o Carnaval (Daniela Mercury, 2019), a melhor composição da recente safra autoral da artista.

Perfume peca pelo excesso de faixas, justificado somente se for produzida uma (necessária) edição em CD do álbum. Do contrário, a canção Duas leoas (Marcelo Quintanilha, 2019) sobra no disco, pois o valor da faixa se resume ao ativismo ao unir a voz de Daniela Mercury com a da companheira, Malu Verçosa Mercury. Outra gordura é Longínquo longe (Gabriel Póvoas e José Carlos Capinam, 2019), dueto afetivo da artista com o filho Gabriel Póvoas.

A militância de Daniela Mercury – cabe repetir e ressaltar – vem se mostrando fundamental para a comunidade lgbtqia+ em tempos polarizados, mas, do ponto de vista musical, ela somente contagia quando a artista une o ativismo à alegria do Carnaval e à inspiração das composições próprias ou alheias, como acontece nos melhores momentos do álbum Perfume.

G1

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